sexta-feira, 25 de abril de 2008

Abril... (parte 2)

Na continuação do texto anterior, deixo aqui uma segunda parte desta peça, falando sobre os "famosos" interrogatórios que a PIDE fazia...

(Narradores trazem uma cadeira e colocam-na no centro do palco)

- Ser ou não ser, já escrevia Shakespeare.
- Eis a questão?
- Qual?
- A questão fundamental do nosso viver.
- Da nossa maneira de estar perante a vida...
- ... e perante a sociedade tão castradora ontem...
- ... tal como ainda hoje.
- Usar o amarelo...
- ... assim como o Laranja ou o vermelho...
- ... sem que nos apontem um dedo acusatório.
-Ter direito a vida própria, fazer opções, orientações...
- ... sem que para andar na rua...
- ... tenhamos que olhar para um lado...
- ... e para o outro, com medo que a escuridão dos enfatiados...
- ... nos venha absorver todas as nossas forças e vontades.

(Sentado no público está a personagem António, surgem dois homens vestidos de gabardinas escuras e chapéus, focos de luz apontam para as personagens)


Pide 1 – Ó amigo, você chama-se António Alves, não é?

António – Chamo porquê? Os senhores desejam alguma coisa?

Pide 2- Porque o senhor tem de nos acompanhar.

António – Acompanhar? Eu não vos vou acompanhar coisíssima nenhuma, eu tenho é de ir para casa descansar e ver o meu filho e a minha mulher...

Pide 2 – Xiuuu...pianinho...o senhor vem connosco e mais nada.


António – Mas qual quê... Eu tenho os meus direitos...mas onde é que eu vou com vocês e porquê? Eu não vou e não vou mesmo.

Pide 1 – Mas quais direitos...você tem é o direito de estar muito caladinho e mais nada.

(Os homens levantam António á força e empurram-no pelo corredor, cada um agarrando um braço, António tenta fazer finca pé. No palco encontra-se uma cadeira colocada no centro do palco com um foco por cima dela.
António é sentado na cadeira, os dois homens saem, faz-se um compasso de espera de dois, três segundos e entra um outro homem que diz):



Pide 3 – O freguês é este? Então conta-me lá, diz lá tudo o que tens para me dizer!

(Momento de espera)

Então não falas? O gato comeu-te a língua foi? Vá lá, quanto mais depressa falares, mais depressa vais para “casa descansar ver o teu filho e a tua mulher...”

(Momento de espera, seguido de um grito aos ouvidos de António)

Fala, meu sacana ou ainda te arranco a língua!

António – (Muito calmamente) Eu não tenho nada para lhe dizer!

Pide 3 – (De costas para António)
Ai não companheiro? Vais ver que não tarda muito, começas a cantar como um passarinho!

(Agarrando-o pelos cabelos)

Então, agora falas ou nem por isso? Vá, começa lá a cantar!

António – Não vou falar, não tenho nada para dizer, largue-me seu filho da mãe!
Largue-me ou eu...

Pide 3 – Ou tu... ou tu o quê? O que é que tu fazes? Então querias reivindicar, não era?
E agora não falas pois não?

(Gritando, segurando-o pelos colarinhos)

Pois não?

(Dando um pontapé na cadeira, obrigando António a ficar de pé)

Já que não queres falar, ficas ai de pé até achares que já tens alguma coisa para nos dizer.
Ai quietinho, nem um pio, ahh, não te quero ouvir respirar, nem uma mosca sequer.

(Dando-lhe palmadinhas na cara.
António olha-o fixamente e cospe-lhe a cara)


Pide 3 – (Limpando a cara, com as costas da mão)
Meu safardolas! Tu estás a pedi-las...
(dando-lhe um murro na cara e saindo da sala, foco continua a iluminar António, faz-se silêncio, entram o narradores)

- Hoje, quem serão estas pessoas?
- Viverão com algum peso na consciência pelo mal que fizeram?
- A mente estará atrofiada?
- Conseguirão deitar a cabeça na almofada e dormir descansados de noite?
- Ou levaram consigo este peso para a cova?
- Ou será que a perversidade funciona como uma borracha e hoje já nem se lembram do que fizeram?

(António ainda se aguenta em pé algum tempo, depois começa a sentir-se fraco e acaba por cair.
Narradores agarram na cadeira e colocam-na de maneira que se possa ver António no chão, um deles senta-se)

- Parem...
- Pensem...
- Olhem para a cadeira que está ao vosso lado? Conseguiram analisar se a pessoa que está lá sentada seria capaz de atrocidades como estas?
- Olhando para o mundo á vossa volta...
- Conseguiriam identificar alguém capaz de tais crueldades?

(Narradores agarram no homem e levam-no para fora de cena.
Canção de Zeca Afonso
“Os Vampiros”)

domingo, 13 de abril de 2008

Abril...

Neste mês que é o de Abril, festeja-se a liberdade... de expressão, festeja-se todas as liberdades.
Por isso deixo aqui um excerto de um texto que faz parte de uma peça para ser feita em Abril.

"(No palco está um cenário a preto com um cravo vermelho pintado, luz negra entre cada cena, narradores vestidos de pretos, eventualmente com um apontamento de vermelho, umas luvas por exemplo)

- Hoje, vamos festejar Abril...
- ... hoje vamos festejar a vida, a tua, a minha...
- ... a nossa, a vossa liberdade de poder afirmar eu sou...
- ... eu e estou de bem com a vida.
- Não há cá vai - se andando, aqui, só se vai estar sempre bem.
- Porque é bom poder dizê-lo aos sete ventos...
- ... gritar para quem quiser ouvir...
- ... adoro viver!
- Sem repreensões, sem dúvidas que exista alguém na sombra de cada esquina, que coloque em dúvida quem somos e o que fazemos.
- Esta, é a nossa missão esta noite, ainda que por vezes impossível...
- É sempre bom poder sonhar com um mundo melhor...
- É sempre bom poder sonhar...
- “Que o mundo pula e avança, como uma bola colorida, por entre as mãos de uma criança. “

(Cantar/ Dançar "Pedra Filosofal "– António Gedeão)

- Agora com as almas já aquecidas pelo calor da música...
- Vamos ao concreto e ao propósito de nos reunirmos hoje nesta sala.
- Não estamos aqui para pedir dinheiro...
- ... estamos cá para alertar consciências...
- ... para vos dar conhecimento do rumo que a expressão e a sua liberdade pode tomar quando erramos...
- ... ainda que sem intenção, ignorando o passado.
- Querendo no presente ocultar o que outros fizeram...
- ... para que hoje possamos gozar do nosso próprio á vontade nas questões básicas da vida.
- Desde a política, á vida social, poder decidir ou não...
- ... se estamos bem ou mal e se queremos mudar algo na nossa vida.


(Cantar "Muda de vida" – António Variações)


- O que esta noite parece algo de comum...
- ... nós aqui deste lado, dando-vos um pouco daquilo que cada um de nós sabe fazer...
- ... e desse lado, a partilha de opiniões...
- ... a critica construtiva...
- ... que para nós é tão importante, era quase inexistente não há muitos anos.
- O que os livros de história não contam...
- ... as emoções, os sofrimentos...
- ... os sorrisos e as lágrimas...
- ... nós hoje vamos contar aqui.

(No fundo da sala está Alferes Gonçalves e é interpelado por um soldado):
Soldado – “Mê alferes, o Rodrigues está, de arma aperrada, á entrada da caserna dos condutores e diz que “limpa” o primeiro que lá quiser entrar. Está muito nervoso, fora de si, parece o diabo em pessoa. Ai que desgraça!

(O Alferes dirige-se para o corredor entre o público e o soldado vai atrás dele dizendo):
Soldado – Onde é que vai mê alferes? Olhe que ele mata-o.

(Sem dar ouvidos avança, ainda que á cautela. Soldado Rodrigues está de arma apontada a ele, chora e treme dizendo):
Rodrigues – Não avance meu alferes, olhe que eu disparo... Vou-me matar, e quem tentar impedir-me, lixo-o, vai á minha frente.

(Dando mais um passo o alferes questiona):
Alferes Gonçalves – Oh Rodrigues, deixa-te de merdas, tens alguma coisa contra mim, tens algo contra alguém, tens razão de queixa dos teus camaradas?

Rodrigues – Não avance, meu alferes, não avance, merda... Olhe que eu disparo.

(Na sala estão alguns soldados a observar a situação. O alferes Gonçalves avança para Rodrigues decidido, embora cauteloso dizendo):
Alferes Gonçalves – Vais entregar-me essa merda dessa G3... eu vou avançar... (voltando-se para trás para os soldados) e vocês, regressem ás vossas tarefas. Eu e o Rodrigues temos de conversar... Dás-me essa arma?

(Diz estendendo as mãos. Ao receber a arma, os dois homens caiem nos braços um do outro, Rodrigues chorando desalmadamente como uma criança e o alferes Gonçalves fazendo um extremo esforço para não fazer o mesmo.
Os soldados ainda lá estavam, uns suspirando de alívio, outros chorando, quando o alferes volta a dizer):
Alferes Gonçalves – Não ouviram? Regressem ás vossas tarefas! Eu e o Rodrigues vamos conversar.

(Os soldados dispersam)
Alferes Gonçalves – Homem, agora conta-me lá, o que se passou dentro dessa cabeça? Estás com algum problema?

Rodrigues – Ó meu alferes, eu não sei, estou farto disto...

Alferes Gonçalves – Mas olha lá rapaz, quem é que não está?

Rodrigues – O senhor desculpe isto que aconteceu, se me quiserem castigar façam-no, eu sei que mereço. Mas não me conformo, quando sai de Lisboa, tinha prometido ao meu pai, que nada me aconteceria, no entanto desde que cá estou já fui parar á enfermaria quatro vezes, eu não presto para aqui estar.

Alferes Gonçalves – Rodrigues, esquece o castigo, isto morre aqui. Agora deixa-te dessas coisas e vê se te acalmas.

Rodrigues – Obrigado, meu alferes, obrigado por tudo.

Alferes Gonçalves – Obrigado por nada, vamos lá ali beber umas Cucas e esquecer isto rapaz. Vá, vem daí.

(Personagens saem de cena)
- Os momentos de loucura pura e dura, as feridas da alma...
- ... perduram em muitos homens até aos dias de hoje.
- Muitos deixaram de viver as suas próprias vidas...
- ... para embarcarem na viagem ao universo dos fantasmas e sonhos maus.
- Abandonados á sua sorte, pelas famílias e pela sociedade...
- ... muitos são os chamados sem abrigo que habitam as nossas ruas e alguns hospitais psiquiátricos...
- ... a quem nós olhamos de lado com pena e desprezo.
- Quem sabe, um dia tenham algo mais para nos contar...
- ... no dia em que pensarmos pormo-nos na pele deles...
- ... quem sabe acordarão por fim do sonho mau...
- ... e passarão a ser pessoas como nós.

(Canção “Aquele Inverno” – Delfins) (...)"

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Coita d' Amor - Grupo de Teatro Contrasenso

O Grupo de Teatro Contrasenso já estreou mais uma peça, desta vez é uma reposição da peça "Coita d' Amor" , uma "comédia inspirada no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende.
Donzilia, uma sofredora dama medieval, vê o seu amado partir para a guerra.

Só e desgostosa, depara-se com uma série de cavalheiros que disputam o seu amor. Apaixona-se por todos, mas a sua mãe parece não gostar muito da ideia.


Contudo, o pior está para vir, quando o seu amado voltar da guerra."


A peça estreou com casa cheia a 5 de Abril e ós seus próximos espectáculos dia 11 e 12 de Abril pelas 21.30 no Auditório Fernando Pessa, no Espaço Municipal da Flamenga em Lisboa.
Mais informações in http://grupodeteatrocontra-senso.blogspot.com/

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Consciências Teatrais...

Este é o primeiro pos't do blog "Consciências Teatrais", como já devem ter percebido, este blog era o antigo cantinho, do Grupo Tetro G.B. 22 Maio da Idanha, aqui vai continuar a espreitar o que fizemos, mas daqui para a frente, este blog deixa de pertençer a um Grupo de Teatro e passa a pertencer à comunidade teatral, principalmente à amadora.
Junte-se a nós nesta aventura!

Cumprimentos teatrais...